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sexta-feira, 9 de março de 2012

O Mistério das Palavras Ocas

Recentemente tive uma conversa com um amigo meu que, nao sendo pagão ou nada que se pareça, me fez um interrogatório de mais ou menos duas horas á cerca da minha religião. Percebi que há muitos anos que nao me encontrava numa situação destas; explicar o que eu pratico a alguém sem absolutamente referencias nenhumas a cerca da temática seja em relação ao Paganismo ou Wicca Tradicional.

É impressionante a dificuldade em encontrar palavras e definições. Dei comigo quase a recitar definições básicas que não me satisfaziam, nao definiam as praticas como eu gostaria que fossem definidas e isto tudo sob o olhar confuso do meu amigo.

"Então e vocês não rezam?"

Bom, o problema é que todos nós temos tendência em comparar o que outros fazem com a nossa própria existência e neste caso, o meu amigo toma a religião na qual foi exposto como referência. Eu expliquei que não "rezamos" mas que fazemos algo similar. Neste ponto da conversa eu estou a pensar como é que eu explico "prece" ou "evocação" ou indo mais além, "invocação". Será necessário ir tão longe na explicação? Talvez não...

"E onde é que vocês fazem os rituais?"

As respostas a estas perguntas levam as vezes algumas horas a explicar. Sinto que muitas delas necessitam de outras explicações previas para que sejam entendidas na sua forma mais básica.

É incrível a forma como as palavras falham e as definições parecem estéreis. Quando se tem contacto durante anos com iniciados, torna-se extremamente difícil tornar claras a mais simples das definições. E porque é que todas as definições me parecem tão "despidas" de significado. Penso que parte do problema reside no facto de que a Craft tem de ser experimentada em vez de explicada.

"E já sentiste alguma coisa?" perguntou ele, com o mesmo ar confuso.

"O que queres dizer com sentir?" perguntei eu.

"Bom, vocês não trabalham com energias? Pensei que uma vez que trabalham com energias sentisses alguma coisa."

Achei curiosa esta pergunta, e mais curiosa ainda a clarificação. Tentei-lhe descrever o indescritível até por que por motivos evidentes não lhe poderia revelar muito, mas disse o que pude e ele ficou, penso, com uma ideia do que é a Wicca Tradicional. Mas existem tantos pontos que ficam por clarificar. Embora a história da Wicca Tradicional não ter mais do que 50 ou 60 anos, os detalhes são tantos que é bastante difícil clarificar eventos e linhas de pensamento e prática, sem primeiro definir o vocabulário da Craft. Existem tantos termos que exigem clarificação imediata e que sem ela, é praticamente impossível revelar e compreender as bases da história em si, muito menos coisas mais especificas como ritual.

A cosmogonia é simples e ao mesmo tempo complicada, mas tentei explicar que falamos de dualidade em vez de unidade - embora também isto não seja tão simples assim, e nos leva a níveis e explicacões mais complicadas e que sem duvida poderão parecer contraditórias e confusas para aqueles que não tem ideia do universo esotérico, muito menos do oculto ou hermético. Senti que estava a explicar uma complicada cirurgia cardiovascular em detalhe a uma criança de cinco anos, tentando ser simples, não querendo deixar os traços gerais de fora. Mas como é que se explica algo tão complexo a alguém sem referencias nenhumas ou conhecimento nenhum de medicina ou até mesmo biologia? Consegue-se, escolhendo as palavras e conceitos simples. Mas na simplicidade dos teremos e definições, senti que quase estava a fazer um disfavor á disciplina em si, uma vez que a sua essência é tão complexa e hermética que por muito que se simplifique, qualquer definição é apenas uma "sombra" da realidade.

Muitas das vezes, perdemo-nos nas complexas teias dos mistérios, e esquecemos que por vezes é necessário comunicar de forma clara a outros o que fazemos.

Tenho a certeza que a ideia não pode ser mais do que isso mesmo - uma ideia.

Temo ter falhado na explicação que fiz ao meu amigo. Parece-me que aqueles que não são chamados para a Craft, permanecem surdos às palavras que a definem. E será sempre assim. Sempre.

Karagan

1 comentário:

  1. Tantas e tantas vezes somos confrontados com essas e outras questões. Tantas vezes procuramos descrever por palavras aquilo que as palavras muitas vezes não servem para descrever, como explicar por palavras sensações, emoções...? Claro que se pode e deve proceder a explicações quando elas dizem respeito a questões mais ou menos formais-teóricas, aliás, penso eu, que nos temos que correm cada vez é mais necessário esclarecer, desmontar, clarificar um conjunto vasto de ideias e de conceitos que enfermam de erros, confusões, mau entendimento, que circulam de forma gratuita e que mais não fazem do que contribuir para o crescimento da confusão que em muitos casos é aproveitada por alguns para alimentar egos e nada mais. Promover o esclarecimento quanto a princípios básicos na minha perspectiva é necessário e útil, mas ir mais longe do que isso parece-me não ser possível, até porque como bem dizes: "(...)Penso que parte do problema reside no facto de que a Craft tem de ser experimentada em vez de explicada." ou então quando terminas dizendo: "(...)Parece-me que aqueles que não são chamados para a Craft, permanecem surdos às palavras que a definem. E será sempre assim. Sempre."
    De qualquer maneira reafirmo a necessidade de esclarecer, desmistificar, clarificar, pontos básicos, pois só dessa maneira é possível promover a demarcação entre o que é verdadeiro e o que não é. Tarefa inglória? talvez seja, mas pelo menos fica a sensação e a certeza de que se deu o melhor que se conseguiu.

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